domingo, 5 de maio de 2013

Queimai (Ou Não)

Se quiseres algo queimar,
Que queime.

Se houver vontade, queimai um cigarro.
Se houver força de vontade,
Queimai o maço.

Queimai defeitos.
Queimai calorias.
Queimai o perfeito.
Queimai as mentiras.
Queimai o desrespeito.

Queimai não por queimar.
Queimai porque como diria Lavoisier,
Nada se cria, nada se perde
Tudo se transforma.
E que venha a queima 
De uma reação química.


Queimai a pena.
Para que das cinzas voe a solidariedade.

Queimai a lenha,
Se entre tanto calor,
Houver um pedido de que venha.
De que queime a dor.

E no amor vale tudo.
Com a chama de dois amantes,
Há os segredos trancados nas
Portas dos fundos para se queimar.
E que queime.
Queimai.

Queimai energia
Ao redor de uma fogueira 
De São João.
E em qualquer outra confraternização,
Acenda o fogo,
Ligai o fogão,
Mas só tenha cuidado
Para não queimar o feijão.

E não tenhas medo
De queimar a mão.

Queimai o papelão.
Para refazer o papel.

Queimai em forma de brilho
Outra reação química no céu.
Queimando no ano-novo,
Mas não queimando o novo.

Evapore as lágrimas,
queimando a tristeza.
Queimai dinheiro (?),
Queimai o frio.

Mas por favor!

Não queimai a natureza.
Não queimai um sujeito,
Sendo ou não mendigo.
Não queimai livros.
E queimai o luxo,
Mas não queimai o lixo.


- Júlia S.



sexta-feira, 3 de maio de 2013

Piegas

Há momento para tudo...
E para tudo acostumei-me.
Não apenas com o piegas.

Mas se eu demoro, ele me espera.
Se eu corro, ele me pega.

E a melhor maneira de curar esse piegas dentro de mim,
É pô-lo para fora, seja num papel em carta
Ou num papo de botequim.

Melhor maneira desse piegas sacrificar
É relembrar toda hora, o inútil,
Esse afeto recriminar.

Troco amor por afeto
Para tentar não ser piegas,
Para me livrar de um possível patético.

Mas como?
Estando dentro do franco, claro, límpido
E sincero.

E então, qual é a verdade?
A verdade é que eu gosto de quem não deveria.

Cobiço a quem uma moça direita
Não cobiçaria.
Mas eu sou esquerda.
E quero você à minha esquerda ou direita.

E não, não é só cobiça.
Pois provavelmente assim
Seria caliente.
E não piegas.
Mas é piegas mesmo.

É amar aquela pessoa, aquele jeito...
Quiça até amar
Não poder tê-lo.
Simplesmente amar ele me despertar desejo.

Às vezes penso que ele sabe.
Mas finge não saber; aceita minha amizade,
Mas ignora o meu segundo querer.

Ou ele não me acha interessante.
Ou tem muito juízo.
Eu tenho o juízo final.
O meu inicial é muito tímido.
Talvez deveria repassar sua timidez para o final,
Quem sabe fico mais controlada,
Perto de ti mais acanhada,
Simplesmente apática.
É isso ou minha simpatia beira a ser assanhada.

Pois o problema do meu piegas
É que ele começa com o tesão.
O de vocês não?
E bem, acho que toda libido
Não está muito atrelada à razão.

Toda libido
É o princípio do corrompido.

E será que esse meu ******/ **** *******
Será o mesmo, após passar no meu leito?
Se aquilo que eu almejo, comigo
Ter vivido. 

Eu não sei o quanto quero, como quero...
Só sei que o quero.
Não garanto que eu espero.
Pois ele nem sabe em mim chegar.
Será?

Garanto que o caminho é fácil,
Mas não garanto que o lugar é assim,
Maleável. Plenamente vivenciável. 

Mas a culpa será minha?
Eu o querer é uma sina.
A minha sina.
A dele ele ainda faz.
Se me quiser,
Não o garanto a paz.
Não por mim.
Mas lhe dou muito mais.

Hei de tomar a iniciativa?
Tenho outra alternativa?
Ou não tenho nenhuma?
Pode ser, mas não me contento
Em esperar a nave, olhar a lua.
Vagar na rua, vendo a banda passar.
Esperando o meu amor passar.

Não me sinto sua.
Mas sinto a minha vida com a sua.
Não te sinto meu, mas às vezes te sinto
Um pouco em função de eu.

E eu não sinto o seu corpo,
Mas sinto a sua alma.
Fito o seu rosto,
E para mim isso basta.
Só não sei até quando...
Debruçarei eu meu leito,
Agarrarei o travesseiro,
E um beijo guardado
Não destinarei.
Mas não tem validade,
Não há amargado.

E no orgulho não há ferimento,
Não vaidade, mas não posso negar
Meu particular sofrimento.

Sei que não sei quase nada,
Mas sei que mais nada ainda
É o que me cabe.

Sei o que é meu tudo,
Sei o que preciso.
Sei que te preciso.
E você nem sabe o que sei...
As coisas que eu adivinho,
E tampouco as que eu sinto.

Eu sei que não sei até quando
Eu aguentaria me privar de pelos menos
Dizer que te amo.
Eu não sei até quando, me caberá
De ti esse tanto...
Não sei até quando me descontento
E não tento outro tanto.

Perdoe-me se você está aí, na paz e conforto,
E eu estou te incomodando.

Mas você só precisa de uma coisa para me dar sinal verde,
Para me dar um sinal de esperança:

Enquanto você não pode olhar para cá,
Para o outro lado,

Basta olhar um pouco abaixo,
No espaço dos comentários.
Que não se preocupe, antes de publicados,
São a mim enviados para ser revisados (ok, rima sem querer)

Pois se um dia você tiver vergonha de mim,
Eu nunca terei vergonha de ti.
Por isso esse meu expor (que acontece após algum impor)
Mas também, jamais, seria o seu caos, o seu fim.

E se você está perguntando "será eu?"
Não se acanhe, é você.

Me responda mesmo que seja para me dar um basta,
Pois pelo menos aliviei, em não te adorar
Calada.

E se para mim tal ditado vale, espero que para você
Meia palavra também basta.

E se para mim você vale, espero que para ti
Eu também valha.


- Júlia S.


A Ilha

Me vejo em uma ilha.
Muito fácil de entrar,
Mas que não se sai,
Lidar é a saída.

A ilha sonífera,
Em que sono é um cômodo desejo,
Não acordar pode ser um pesadelo.

As ilhas regidas por um arquipélago
De visceral cemitério.

A ilha que emite um facho de luz,
Que um dia me seduz,
Mas para onde me conduz?

Eu nado
E nada.
Sufoco no meu corpo mutilado,
Afogo na minha alma ilhada.

Nessa ilha 
Em que se confunde uma selva
Com sua relva
Rasteira.

Me vejo em um lugar ao sol,
descontente com a sombra e água fresca.
E no pasto, não sou apenas a ovelha negra.
Sou somente uma ovelha.
No meio de uma seita,
Mendigando uma seiva,
Contemplando a ilha feia.

Sem pastor,
Nessa ilha
Em que brota um cor,
Mas sem onde colorir,
Colore o que for.
Uma lástima, uma ira
Em disfarce de flor
No meio dessa ilha.

Da ilha que se acha,
Na ilha em que estou perdida.
Da ilha que se mata,
Da ilha puramente viva.
Da ilha sem chegada,
Mas esperada a partida.

Nessa ilha não se teme a noite,
Pois tenho minha lanterna.
Temo o dia, em a nossa vista
Só alcança o que desespera.

Nessa ilha não se teme a solidão,
Dela se extrai a paz, o medo é ser só
No meio de uma multidão.

Nessa ilha não tem Wilson.
Ele foi furado.
Murchado, e quem se importa?
Apenas mais um coitado.

Nessa ilha não há náufrago.
O duro é sobreviver em terra.
Não morrer na mata.
O mar apenas o nosso fim espera.
Zomba de nós, por ser infinito,
E salgado pelo maldito.

Essa ilha é tão grande para mim.
E tão pequena para minhas neuras e afins.

Nessa ilha o único metal
É o contra as nuvens, 
Vive de seu interior 
E não de vento no litoral.

Essa ilha ardente,
Em demasiado açúcar diabético
E sem sal.
Essa ilha do incerto
E daquilo que é deve ser correto.

Essa ilha no mapa,
Mas que não tem mapa.
Essa parte da ilha
Que não quer ser vista.

Essa ilha com maré,
Não maresia.

Essa ilha do perdão.
Pois nela há pecado.
Tudo é pecado.
Mas a nada é resignado um não.

Ilha sem oásis.
Ilha das saudades.

Essa ilha qualquer...
Essa ilha de quem entrar,
Mas não necessariamente de quem quiser.


- Júlia S.


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Financiamento

Dizem que eu financio essa merda,
Algo amoral e proibido.

Mas então, o que eu financio,
Com o meu voto direto em um corpo político?

Quando nem sei de onde veio
E como foi feito,
Aquilo como que me visto?

Quando não sei de onde veio,
Como foi feito.
Quando eu não ouvido
E nem vejo.

E quando não sei para onde vou,
O que eu financio?

Tem coisas que não financio.
O racismo,
O machismo, 
O egocentrismo...
Entre outros que rimam
Com seu tamanho pequenininho.

Infelizmente, ao contrário desse ilegal,
A gente não pode parar
Até que não se fale mais de financiar
E sim de fazer mudar.

Dizem que estou afrontando.
Mas não há nada mais afrontador que a apatia.
Cada um sabe o que financia
Ou pelo menos deveria.

Nem percebem, mas eu sou afrontada
E vou descontando meu afrontamento,
Apenas vou o repassando,
Mas não numa perspectiva de sofrimento.

Simplesmente numa perspectiva
De que não se fale em financiamento.

Quem precisa de finanças?
Ela não sustenta a esperança,
Nem pode bancar a mudança.

- Júlia S.


O cifrão até lembra as (garras) grades de uma prisão.

De Algum Lado... Quiça de Muro Disfarçado

Em um bairro de classe média, uma mãe:
- Eu não quero um dia ouvir meu filho dizer que vai ali na esquina comprar maconha.
Em uma periferia ou favela, outra mãe:
- Eu não quero ouvir dizer que meu filho vai ali na esquina e nunca mais voltar. 

Em lados opostos também estão, policiais que caçam traficantes, e outros que lavam (e molham) as mãos. Políticos que se mantêm com sua ética, e outros com a moral que não têm.

Mas o mais marcante mesmo, é a oposição entre quem entrou nessa jangada. Ou não.

Burgueses que quiça se roubaram a liberdade? Que se privaram de uma possível felicidade?

O que significa isso significa? 
Diante de desafortunados, de filhos dos coitados
Que têm roubada a inocência e provavelmente a vida.

Que nos dias de sol, 
O astro rei que os tiraram,
Podem ser pescados como peixes no anzol.
Que tomar uma luz pode ser, apenas para o além,
Seu farol.

E que nas noites obscuras,
Matar para não morrer,
Entregar a vida para viver,
Parece a única cura
Desse sofrer.

Entre abastados e desabastados,
Sim ou não usuários,
Sim usurpados
Naquilo que se pode levar,
Seja o corpo, o bolso ou a alma.
Levados.
Como sardinhas, enlatados.
E as embalagens, rotulados.

De um lado, onde tudo começou.
Do outro, aquilo que nunca terminou.

Como se falar de ética para quem já trabalha ilegalmente?
Faz do seu ofício o que bem entender, e acrescenta no seu produto o que quiser...
Se não fala da ética desértica,
 De quem foi escolhido diretamente?
Que faz de uma nação, não sua usuária
Mas sua usada,
Drogada.
Jogada.
Manipulada.

Mutilada sem ver a ferida.
Sem olhar sequer para outra esquina.
Ou para uma favela qualquer ou periferia.

Como falar de segurança,
Com tantas balas (e pessoas) perdidas?

Como falar de limites,
Se a desordem é permitida
E a ideia da linha final não é transmitida?

Como falar de preocupação,
Se muita gente é esquecida?

Como falar do certo?
Se está tudo tão incerto,
Se nada escapa do imperfeito,
E o mal continua perto...

Como falar em ideologia,
Discutir sociologia,
Se ainda vendem ilegalmente
Tanta hipocrisia?

Como falar de baseado,
Se não há o baseado em quê?

É muito fácil,
Por a culpa num cigarro.

É muito fácil estar errado,
Quando você está chapado.

E assim, talvez nem morra pelo pulmão.
Mas morre pelas costas,
Morre no vão
Do que ninguém verá.
Morre no chão
Ao ninguém dará.


- Júlia S.



quarta-feira, 1 de maio de 2013

Eles Vão... Mas Ela Fica #05

Somos um pranto,
Cujas lágrimas e lástimas
São uma gota no oceano.

O sangue que nossos queridos
Um dia já deram
E infectado o tiveram,
Também são gotas nesse maldito oceano.

São veias estouradas,
Assim como nossos corações,
Nossas almas dilaceradas.

São almas levadas.
E as nossas ainda não estão lavadas.

Temos um amor imune.
E uma realidade
Até então imunizada
Queremos mudar
Já que aqueles que não tiveram munição
Não pudemos muito ajudar.

Com sangue, alma, cabeça e coração.

O que não temos é estômago
Para continuar nessa aflição.

Somos pais. Queremos a paz, a gente é capaz,

Somos mães, 
Somos filhos,
Tios, amigos,
Até irmãos

De Henrique, Herbert e Chico Mário,
Agenor ou Renato.

Somos gente.
E vocês poderiam estar
No nosso ou deles
Lugar.
Mas não estão,
Felizmente.

Mas olha lá,
Nem por isso, se contente.

Pois o tempo,
O tempo não para.
Mas ela se deixar,
Ela o para.

E aos poucos,
Vai mostrando a sua cara.


- Júlia S.




                     

































Alusão (ou repetição de) a Elas Vão... Mas Ela Fica #03.

Eles Vão... Mas Ela Fica #04

A morte veste vermelho.
Vermelho do sangue,
Não apenas daquele derramado.
Mas daquele que correu infectado.
Sangue que era vida,
Sangue que era labuta.
Mas agora estagnado,
No qual a morte se lambuza,
Qual a morte o usurpa.
Sangue que foi do amor.
Mas que amor desrespeitoso é esse?
Sangue sem sorte,
Que agora sua cor
Pertence de maneira infortuna
À morte.

Sangue que se putrifica
Com a carne.
Decompõe com os ossos.
Definha com os músculos.
Seca com os olhos.

A morte veste vermelho
E bebe o vinho
Do sangue sem tino.
Do sofrimento tinto.

- Júlia S.


Anthony Perkins, uma das célebres - e talentosas - vítimas da AIDS; Famoso pela sua atuação na singela obra-prima Psicose (dirigido pelo mestre Alfred Hitchcock), também atuou em outro terror: A Morte Veste Vermelho (I'm Dangerous Tonight), uma vez dirigido por Tobe Hooper - e outra pelo HIV.